Guerra de gerações

Guerra de gerações

Em um recente Congresso de Recursos Humanos, uma jovem congressista após ter-lhe franqueada a palavra pelo palestrante, não hesitou em dizer que se sentia injustiçada por se achar mais competente do que seu chefe e receber a metade da sua remuneração. Naquele momento houve uma perplexidade dos mais velhos e um sorriso justiceiro dos mais jovens. Ela quis dizer que dominava as ferramentas tecnológicas e que o seu superior hierárquico usufruía dessa sua competência para realizar o seu trabalho, e que, sem ela ele não seria o mesmo. Essa pequena mostra traz à tona uma discussão atual: a intolerância entre os jovens, em particular a chamada geração Y – nascidos entre 1979 e 1990 cuja intimidade com a tecnologia é inata, e os mais antigos, principalmente os nascidos nas décadas de 50 e 60, que tentam imigrar para conseguir o conhecimento digital. Não há a menor dúvida de que o abismo que os separa é enorme, da mesma forma que vêm se compactando as adversidades mútuas. De um lado a imagem do colonizador e do outro a do jovem inquieto e revolucionário profissional que tem pressa de fazer carreira meteórica a qualquer preço. Muitas empresas ainda não conseguiram sintonizar o ponto de equilíbrio entre as gerações para tornar o seu processo de convivência mais harmonioso e produtivo, e como resultado, sofrem com o alto turnover de jovens talentos e uma velada sonegação de informações dos mais velhos. De certa forma vivemos uma guerra de gerações. Na medida em que os antigos se prendem à noção de que não fazem parte do sistema social e profissional dos jovens, e esses por sua vez não querem esperar o melhor momento para fazer a transição, o resultado não será o melhor para as empresas. Da mesma forma que a empresa moderna não vive sem a competência tecnológica, em grande parte em poder do jovem, ela também não viverá por muito tempo sem a presença efetiva do velho que conhece cada centímetro dos seus porões, que sabe avançar e recuar no momento certo. Em qualquer conflito, principalmente quando envolve poder, é preciso abordar a questão da avaliação com uma discussão mais profunda. O sucesso de um e o sucesso de outro uma vez compartilhado é o sucesso do empreendimento, não estamos lidando apenas com a venda de ideias ou de produtos, estamos promovendo a consciência do que significa preservar a saúde da empresa, consequentemente a saúde de todos que ali habitam. Para onde qualquer das partes seguir vai se confrontar com o mesmo problema, o que significa conviver com ele em outro lugar. Entendo que o processo de admissão já deve contemplar a pergunta: Quais as expectativas que ele, o candidato, tem de si mesmo? Qual é a sua intenção com relação a sua carreira e a empresa? Como ele se sente trabalhando com pessoas mais velhas, ou mais novas, se for o caso, no mesmo ambiente, e qual é a sua disposição de conviver integrado numa equipe multidisciplinar que agrega perfis, poderes e idades diferentes? Para definir a gestão, seja do negócio, seja da imagem, do processo, do mercado e principalmente de pessoas, passa-se pelo relacionamento interpessoal, pelo grau de tolerância que o líder pode absorver. A vivência, o conhecimento de todo o sistema digestivo das organizações sem dúvida pode representar uma vantagem a quem está acostumado a desafios, a decisões, que só acontecem através da experiência. Certa ocasião, numa consulta médica, com base na leitura de vários exames, me foi recomendado por um jovem cirurgião uma intervenção cirúrgica para correção de um problema. Como cirurgia é sempre um procedimento invasivo, decidi buscar uma segunda e uma terceira opinião. E apesar dos elogios ao jovem médico, os outros dois, mais experimentados com os fatos, com as causas e as consequências do processo médico, não decidiram por uma cirurgia já, e sim pelo tratamento clínico, o qual foi obtido com total sucesso. No mundo corporativo, não é diferente, portanto, quanto maior for a compreensão, o compartilhamento, a cooperação e o respeito às diferenças, melhor será o resultado e consequentemente o futuro de todos. É imprescindível que a guerra de egos seja menos importante que o foco no resultado. E ao jovem da geração Y, não se esqueça de que a geração Z está chegando e o seu jeito de lidar agora será o seu aprendizado.

Ubiratan Ferrari Bonino

HR Hunter, Consultoria de Recursos Humanos do Rio de Janeiro, tem como expertise: Recrutamento e Seleção, Treinamento Comportamental, Plano de Cargos e Salários, Pesquisa de Clima e Coaching.