Entrevista de Seleção: hora de colocar em prática o respeito

A entrevista de seleção consiste em um encontro onde, de um lado está um profissional desejoso de encontrar colocação no mercado de trabalho e do outro lado está o selecionador, com a missão de encontrar alguém que preencha o perfil adequado à vaga disponibilizada pela empresa.

No entanto, além das expectativas de ambos os lados, existem seres humanos passando por um turbilhão de sentimentos e julgamentos muitas vezes invisíveis à percepção. E já por saberem o que esses sentimentos representam, muitos candidatos recorrem a um preparo pré-entrevista e, por sua vez, os selecionadores procuram seguir roteiros bem elaborados.

Hoje, é comum encontrarmos em livros, revistas, jornais, internet e televisão, milhares de informações que descrevem o correto modo de um candidato se apresentar e se comportar em uma entrevista de seleção. Há até roteiro do que dizer, como falar, as perguntas e testes que vão cair, como se sair bem em uma situação constrangedora, entre outras dicas importantes. Porém, por outro lado, são mais restritas as instruções de como o selecionador deve proceder ao entrevistar alguém, e quais as ações a serem adotadas antes, durante e depois de estar com um candidato.

Na hora em que a entrevista ocorre, o selecionador se depara com um ser humano composto de um rico universo a ser explorado, e essa exploração vai além da apresentação física, ele deve investigar, quase como um detetive, os comportamentos, ideias, habilidades, conhecimentos, cultura, atitudes, nível de comprometimento, histórico profissional e realizações do candidato, entre outros requisitos, e isso tudo sem invadir forçosamente o espaço que o candidato está delimitando.

Muitas vezes, os candidatos buscam uma colocação porque estão passando por dificuldades financeiras, ou estão mal colocados em empregos atuais, ou ainda, trazem na bagagem um triste histórico profissional, onde sofreram pressões desnecessárias, desrespeito, falta de reconhecimento e de oportunidades, e tudo isso pode acabar aflorando quando o entrevistador toca em pontos sensíveis durante a conversa. Por isso, o dom de saber como investigar sem ferir e sem fazer julgamentos errôneos, acaba sendo exigido em muitas entrevistas. O entrevistador precisa ter em mente que ele traz à tona muito sentimento, e por vezes, focando em encontrar o perfil adequado, não tem a sensibilidade de perceber que o ser humano à sua frente carece de atenção e respeito.

Entrevistar é uma arte, pois além de saber o quê, quando e como perguntar, o entrevistador deverá estar atento a uma enormidade de ações sutis do candidato, são os trejeitos, manias, comunicação oculta, medos, anseios, carências e até mesmo o cansaço e a fome, porque, por mais que seja doloroso ter consciência disso, alguns candidatos não se alimentaram ou caminharam a pé, por quilômetros, até o local da entrevista. O entrevistador é o responsável pela indicação, ou não, da continuidade do candidato no processo seletivo, ele influencia diretamente, naquele momento, no destino de um selecionando e na sua expectativa de ingressar naquela empresa.

Neste contexto, HACKETT, faz uma perfeita afirmação: “a entrevista não é uma prova de força ou um exercício para o ego. É uma chance para que você encontre alguém com os conhecimentos e as habilidades necessários para ajudar você e sua equipe a apresentarem um desempenho ainda melhor, e para que o candidato escolhido encontre um trabalho que o ajude a pôr em prática seus talentos e os desenvolva. Transmita a ele a sensação de que ele tem um valor pessoal. Pense nesses objetivos e você não vai errar”.

(HACKETT, 2000, p. 33).

Muitas vezes o coração de um entrevistador consciente, fica pesado na hora de descartar pessoas não aptas. Aí, também entra o bom senso e o respeito ao ser humano, pois o bom entrevistador decidirá pela pessoa mais adequada a trazer resultados para a empresa, porém procurará dar um feedback da entrevista aos candidatos que não tiveram a mesma oportunidade, orientá-los em relação ao seu perfil, enfim, deixar claro, em um retorno construtivo, esclarecendo o porquê que o candidato não atendeu os requisitos da empresa.

Com certeza ninguém ficará feliz por não ser aceito em um local, no entanto, pessoas conscientes trabalharão em suas falhas, e tirarão proveito daquele momento especial, onde foram valorizados como seres humanos e tiveram a oportunidade de estar diante de alguém que os considerou profissionalmente ajudando-os com dicas experientes para o mercado profissional e até mesmo, por vezes, dicas que servirão para a vida pessoal.

A entrevista pode ser um momento angustiante, tanto para o entrevistador quanto para o entrevistado, por isso a conversa deve ser conduzida de forma que ambos sintam-se à vontade e seus objetivos possam ser alcançados.

O entrevistador deve estar calmo, consciente de sua função nesse momento e deve procurar tranquilizar o candidato. As pessoas devem ser tratadas com gentileza e educação independente do cargo para o qual se está selecionando.

É preciso lembrar-se que esse momento é marcante, pois as pessoas são “obrigadas” a se revelarem, e isso produz uma ocasião especial para ajudar.

E é essa a missão mais humana do selecionador, ter nas mãos a oportunidade de ajudar ambos os lados, a empresa e o candidato.

Deixo aqui uma dica ao entrevistador: Madre Tereza de Calcutá sempre dizia: “não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz”.

 

HACKETT, Penny. Como fazer entrevistas de seleção. Trad. Márcia Cruz Nóboa Leme. São Paulo: Nobel, 2000.

Jane Lúcia Ramos – Grupo de Recrutamento e Seleção

HR Hunter, Consultoria de Recursos Humanos do Rio de Janeiro, tem como expertise: Recrutamento e Seleção, Treinamento Comportamental, Plano de Cargos e Salários, Pesquisa de Clima e Coaching.