Não! você não é pau pra toda obra

NÃO, VOCÊ NÃO É PAU PRA TODA OBRA!

Setenta por cento dos profissionais estão insatisfeitos com o trabalho. É o que, revelou a pesquisa da Associação Brasileira de Recursos Humanos Integrante do Sistema Nacional (ABRH-BA) divulgada no ano passado, a partir da opinião de 1.340 pessoas da metrópole paulista. De cada 10 profissionais consultados, sete confessam não estarem satisfeitos com a sua carreira ou emprego e gostariam de trocar de função ou empresa. Aí eu pergunto: o problema é com você, com o seu chefe ou é com a vaga que você ocupa?

O trabalho está diretamente relacionado à felicidade e ao sentido que a ocupação traz para o sujeito. Por isso, o primeiro passo para o abismo na carreira em uma empresa é entrar para realizar uma atividade que não é da sua competência. Apesar disso, não dá para ficar parado no tempo, não é mesmo? E nem sempre é por uma escolha sua. Não é de hoje que a obrigatoriedade laboral tem sido uma cobrança social na vida das pessoas por dois motivos: para saciar a necessidade de pertencer em grupos e pela responsabilidade financeira.

Pois bem, vamos falar sobre a lógica do pertencimento – e não estou me referindo ao grupo da empresa, somente. Pare pra pensar: quando alguém acaba de te conhecer, qual é a primeira pergunta que aparece? – “E então, o que você faz?”. Por mais que a gente não admita que o trabalho está relacionado diretamente à nossa satisfação, a nossa identidade é mensurada pela sociedade pelo que fazemos e onde trabalhamos. E isso é muito sério e deve realmente ser levado em conta na hora de ir buscar ‘qualquer vaga’. E isso vale para as empresas, principalmente. O “vestir a camisa” é tão importante quanto a produtividade do funcionário. Se ele omite ou tem vergonha de dizer aonde trabalha indica que a saúde do negócio também não vai bem.

O outro motivo de cobrança pela ocupação a qualquer custo – e também se refere  à formação de grupos, é o consumo. Já imaginou não ter dinheiro no fim do mês para sair com os amigos, ir para a balada, garantir o presente do seu filho ou não andar na moda? Complicado, né? O capitalismo nos obriga a correr atrás de um retorno financeiro rápido, ainda que custe a nossa saúde. Já viu aquela célebre frase de quem está procurando emprego: “Vou começar nessa empresa até achar algo melhor”? Olha, até esse ‘algo melhor’ aparecer pode ter um custo muito alto, viu? Enquanto isso, a empresa adoece, sua saúde mental se compromete e a sua identidade sobre ‘o que você faz’ alimenta todo dia uma crise pessoal.

Existe ainda o outro lado da moeda da pessoa que não sabe o que quer e vai tentando vários ofícios até se encontrar. Tem gente que de primeira encaixa em uma vaga adequada, que, às vezes, até por um desejo inconsciente ela corre atrás do que gosta, mesmo sem perceber. Por outro lado, muitas pessoas se frustram por tentar ser ‘pau pra toda obra’ e acabam tendo que lidar em vários momentos com demissões, projetos falidos ou incertezas de quais caminhos seguir, o que vai acumulando sentimentos de incapacidade, rejeição, entre outros.

Quer dizer que a saída é cruzar os braços e esperar pelo emprego perfeito para não adoecer? De forma alguma, até porque as contas no fim do mês não vão esperar por isso. Uma boa saída é buscar uma orientação profissional (muito além dos testes de internet). Existem profissionais capacitados para isso em consultórios, mas também em escolas e universidades. Algumas empresas também oferecem esse serviço através do próprio RH.

E porque os empregadores também tem que se preocupar em não contratar um ‘faz tudo’? Primeiro porque ninguém pode ser muito bom em todas as atividades, simultaneamente. O máximo que dá para ser é uma pessoa bem intencionada, disposta a ajudar, mas de forma superficial. Usar um profissional com aptidão em uma área para fazer o trabalho de mais três outros setores significa prejuízo de qualidade e perda do profissional com disposição de sobra. Mais dia, menos dia, a capacidade dele vai ficar exausta e para ele se sentir desvalorizado é uma questão de (pouco) tempo.

Por fim, a mensagem que esse texto traz é a de que se você não conseguiu uma determinada vaga, não necessariamente é por sua incapacidade técnica ou pode ser até por uma lucidez de um RH que prefere outro candidato apto ao seu adoecimento. Procure por aquilo que te faz bem. Nenhum emprego é eterno, mas quando ele agrega para o seu conhecimento a longo prazo pode ser muito mais prazeroso.

Texto escrito por Cínthia Demaria

HR Hunter, Consultoria de Recursos Humanos do Rio de Janeiro, tem como expertise: Recrutamento e Seleção, Treinamento Comportamental, Plano de Cargos e Salários, Pesquisa de Clima e Coaching.